
Diário de Internacionalização #03
Há 6 anos faço campanhas e há 6 anos me desespero com elas.
Existe um imaginário muito coletivo quando vemos um backstage no instagram de uma campanha sendo feita de que tudo foi setado perfeitamente pra acontecer ali, daquela forma. Sendo que raramente é mostrado o que realmente ocorreu antes com todas as dificuldades, e que acredito que se todos tivessem total noção do quão difícil é, valorizariam ainda mais uma campanha feita por seres humanos no mundo real. (Já que hoje a outra possibilidade já é uma realidade).
Antes eu pensava que estar no Brasil dificultava todas as minhas campanhas, por contratempos muito conhecidos desse nosso país amado: dias de chuva no verão facilmente encontrados - é a intempérie que cancela uma campanha na primeira oportunidade. E segunda pior: a criminalidade que quase sempre esteve presente. Já presenciamos brigas de madrugada na praia do arpoador durante um shooting, e grandes possibilidades de roubos de equipamentos — o que faz sempre necessário ter segurança em gravações externas no Rio de Janeiro e São Paulo. Ou até mesmo vidro do nosso carro alugado quebrado com a equipe pronta pra sair pra praia às 5 da manhã.
Se juntarmos 10 amigos pra ir pra um mesmo lugar difícil, não se torna tão impossível quanto o dia que precisamos sair pra fazer uma campanha. E digo isso como empresária que precisa olhar tudo ao redor 100% do tempo. Produzo, às vezes fotografo, filmo, dirijo, às vezes maquio, resolvo catering, pré e pós campanha. Me preocupo se vai chover, se tem alguém com cólica, se estão todos alimentados, se todos se sentem bem. Houve um alto investimento apenas pra que aquele dia acontecesse. Tanto monetário como físico. E dessa vez a expectativa se fez ainda maior: trouxemos a nossa primeira modelo da marca pra Espanha.
Encontrei a Giovanna quando a Sage ainda nem existia. Pelas minhas rondas no instagram, descubro uma moça com apenas 6 fotos no perfil, sendo a maioria delas de longe e em preto e branco. Mas algo nela me dizia que era exatamente o que eu precisava pro branding da marca. Como chamar alguém pra um projeto aonde o que precisa ser criado dependeria da nossa primeira construção juntas? Não tinha nenhuma referência a seguir, pois a imagem que criaríamos precisava dela comigo, a outra modelo que já tínhamos, e o Rio de Janeiro às 5 da manhã do verão de 2020.

Pra completar, Giovanna é velejadora e oferece tours pela Baía de Guanabara no Rio diariamente. Ela vive num cenário que provavelmente quase todo cliente da marca gostaria de viver pelo menos uma vez na vida. Adora viajar, conhecer lugares novos, é cheia de vida e já tinha o passaporte pronto pra cruzar o oceano e vir pro lado de cá.
Foi quando no início do ano perguntei pra ela se ela toparia essa aventura de passar uns 5 dias aqui em Barcelona e viajarmos pra Cadaques pra clicarmos. Ela topou na mesma hora, e num instante recebi ela aqui. Depois de 6 anos dela indo e voltando nas nossas campanhas, agora estava presente com o sotaque carioca no velho continente. Ela se encantou com a cidade do jeito que eu já imaginava. Se emocionava a cada esquina e a cada momento que eu olhava pra ela, ela estava pensativa já planejando o que ia ter que fazer pra conseguir voltar.
Sabendo que dirigir até Cadaques e filmar por lá ia ser cansativo, fechei as fotos analógicas com uma fotógrafa querida russa, a Alisa, que nos conhecemos num café super agradável. Tínhamos setado sair de Barcelona às 10h da manhã. Saímos às 14h da tarde. Fomos começar a clicar era 17h. Infelizmente o carro que eu sempre alugo não reconhecia a chave de jeito nenhum, e nenhum outro carro estava disponível naquela hora. Rodei todo o bairro de gracia procurando locadoras ladeira acima e abaixo, e no, no tenemos ningun coche disponible. Fui conseguir com uma locadora de uns russos amigos da fotógrafa, mas já estava tensa o suficiente pra não conseguir ir tranquila pra Cadaques.
Chegando na cidade, engolindo um sushi na calçada com Giovanna e Alisa e correndo pro nosso barco, eu mal conseguia parar pra admirar o quanto a cidade parecia cenográfica. Tudo era perfeito ao meu redor. A loja de orgânicos, as floriculturas, os restaurantes, a luz, o sol, os tons de azul e infinitos tons de branco das casinhas na costa. Infelizmente fiquei tão cansada de já ter corrido ofegante uns 5km atrás de um carro, que mal consegui focar os meus olhos na minha fujifilm. A sorte é que o lugar era tão magnífico, que o primeiro e único vídeo longo que fiz já me garantiu o que eu precisava — o suficiente pra eu largar a câmera no carro e deixar a Alisa clicar.
Navegamos num barco tradicional de Cadaques. Ele foi construído em 1931, quando pescadores e suas famílias precisavam se locomover pela costa. Ele fica entre o píer principal da cidade e o da casa de Dali em Port Lligat (que inclusive vai ficar pra um outro momento, já que chegamos atrasadas). O Joel nos levou com maestria pra partes inabitadas, aonde só existia nós 4 ali, explorando uma terra cercada de mini montanhas e rochas — tudo parecia um sonho.
Depois de corrermos atrás da luz do sol que desenhava a cidade e ia escurecendo ela aos poucos, respiramos fundo juntas ao final do uso de 3 rolos de filmes e comemos um sorvetinho apreciando a orla por alguns minutos antes de partir. Pra onde olhávamos era uma cena de filme. Uma criancinha segurando seu vestido vermelho xadrez saindo do mar com um baldinho cheio de água, completamente focada em não derrubá-lo. Brasileiros ao redor encantados com a golden hour. Um menino por volta de uns 7 anos com um belo black e uma camisa maior que ele, carregando uma menina sorridente super loirinha na garupa da bicicleta, com ela apontando aonde queria descer, e o raio de sol brilhando quase que estridente atrás deles. Era isso. Era como se você pudesse ouvir o raio de sol naquele fim de tarde. E ele tinha barulho de risadinhas de crianças felizes, som de mar, de água batendo na madeira do barco, gaivotas famintas, chinelos caminhando pelas pedras e sotaques e línguas se misturando pelas ruas.
Todos paravam pra olhar a Giovanna. Foi a atração daquele fim de tarde. Eu com orgulho dizia que estávamos fotografando pra uma marca brasileira. Eles elogiavam o look todo em linho com os pés dela descalços. Uma senhorinha pediu pra trocar de blusa com ela, pois se apaixonou na bata acetinada esvoaçante. Casais paravam pra apreciar por vários minutos. Outros se sentavam próximos de onde estávamos pra olhar com calma. Outros passavam mais corridos mas não deixavam de virar o pescoço.
No fim, não gravei o vídeo que eu queria. Priorizei a minha saúde mental e física pra voltar dirigindo aquela noite, pois aquelas meninas precisavam de mim pra retornarmos em segurança pra casa. O que realizamos muito que bem às 01 da manhã. Mas ganhei com certeza fotos magníficas de uma russa olhando a nossa modelo brasileira pelo seu visor da câmera num país que era diferente para todas nós. Só a graça de estarmos vendo juntas tudo aquilo pela primeira vez e conseguirmos passar isso pra um público brasileiro que também precisava ver aquilo pela primeira vez pelos nossos olhos — valeu toda a estrada cansada da ida e da volta. E inclusive o caminho errado que pegamos que tivemos que fazer o retorno praticamente na fronteira com a frança (!)
E o aprendizado que fica é que indubitavelmente sempre será difícil produzir. Eu sempre vou me preocupar. E eu sempre vou estar desnuda pros contratempos, seja em qualquer lugar do mundo. A diferença é que morando aqui, talvez eu aprenda a me desesperar com mais calma. Pois é só o que eu ouço a cada esquina em Barcelona. Calma. Se até o sol aqui espera pra se por às 21h da noite e a Sagrada Familia levou 140 anos pra ser finalizada, acho que eu posso reaprender a respirar com mais destreza a cada vez que um problema surgir.



