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La cesta está vacía

Artículo: Copenhagen Fashion Week

Copenhagen Fashion Week
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Copenhagen Fashion Week

Com um nó na garganta, o avião corre pela pista pra decolar do aeroporto de Barcelona, e do meu lado estou com a Giovanna. Nossa primeira modelo da marca. Mais do que significativo foi levar ela comigo pra esse primeiro fashion week. Quando ele tira as rodas do chão, o barulho da tração da pista termina e tudo o que sobra é o ruído da turbina, é como se eu finalmente pudesse respirar depois de 45 dias trabalhando sem parar pra 4 horas de evento. Choro copiosamente. De cansaço, de felicidade, de realização. O voo é longo pra quem tá acostumado a ir de um país pra outro em 1 hora. Então aproveito as 3h no céu pra finalizar a apresentação dos buyers no notebook, e sinto olhos curiosos do meu lado de um senhor que parece também trabalhar com moda. Enquanto isso Giovanna escreve no diário dela do meu lado. E Pedro, que está sentado lá na frente, decide mandar entregar chocolates pra mim pela aeromoça.

O primeiro dia foi pra nos assentar na cidade. A princípio aluguei um Airbnb espaçoso pra conseguir alocar todo mundo que iria pra me ajudar. Mas todos só chegariam no dia seguinte, então naquela noite éramos só Eu, Pedro e Giovanna. O ar fresco de Copenhagen fazia eu dar por conta do quanto talvez eu não ame mais tanto o verão assim. Pelo menos não o europeu. Só de conseguir vestir uma calça eu já estava feliz. No dia seguinte fui confortável fotografar nossas fotos oficiais no canal de Nyhavn. Escolhemos um restaurante simpático e decidi montar acampamento ali. Que diferença faz ter uma boa base pra conseguir focar num shooting — sem se preocupar se alguém vai levar suas coisas, sem andar muitos metros pra clicar coisas tão diferentes uma da outra, e conseguir trocar os looks num banheiro agradável. Quando o sol começou a subir e ficar mais forte, vimos que era nossa hora de partir. Giovanna estava livre pra aproveitar a cidade. E eu tinha que ir atrás de últimos detalhes do evento, Pedro chegou pra se juntar a mim.

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Descobri um antiquário náutico durante a minha pesquisa ainda em Barcelona, e estava na rota passar por ele e ver se conseguiríamos uns objetos pro barco. Maritime Antiques. Fundado em 1984, num edifício histórico de 1700, que resistiu ao ataque de Lord Nelson e sua marinha em 1801. Eles já esperavam pela nossa visita, o Frans e a Magali, atuais donos. Assim que eu entrei, senti um cheiro maravilhoso que logo depois ele me disse que eram das cordas de cânhamo alcatroadas. É um cheiro muito específico (de pinheiro queimado, madeira, resina, fumaça e um fundo meio doce) que me arrependo de não ter trago um rolo das cordas comigo. Eles usam alcatrão feito de pinheiro, que fica impregnado nas cordas de cânhamo dos veleiros para protegê-las da água e do apodrecimento. Depois de umas quase 2 horas de conversa e selecionar os objetos que eles emprestariam pra decorar o Lilla Dan, entra o pai do Frans. O fundador. Conseguimos ouvir histórias tão especiais, inclusive sobre como os barcos voltavam de longas navegações e deixavam os primeiros objetos ali pra ele revender. Hoje a loja conta com um acervo que vai desde tapetes náuticos feitos a mão por 85EU a bitáculas detalhadas que podem ir até 20kEU. Tudo ali é pensado em entrar pra contar história. E enquanto conversávamos não parava de entrar clientes extremamente interessados em levar algum pedacinho daquele universo pra casa. No final, ele ofereceu sua bicicleta com uma caixa na frente pra levarmos as coisas pro barco, que ele mesmo acabou levando de alguma forma no dia seguinte quando a chuva veio, o que me fez ficar imensamente grata. Eu nunca havia pisado em Copenhagen e de repente eu tinha amigos na cidade que me ajudaram a construir um pouquinho do meu sonho ali.


Pela noite o resto do pessoal chegou, a Maria fez as compras do Catering que ela estava pra resolver, a Bia estudava a lista e fazia o cara crachá das 230 pessoas previstas, e Tinho ajustava seu set que iria tocar. Acordamos na terça com muita chuva. Eu passava as roupas com o Kyle na esperança de que ela fosse passar muito em breve, mas o céu estava tão atordoado que eu já tinha desistido. Imaginei que íamos ter que cancelar, porque mesmo com a proteção do barco, os cantos dele molhavam muito. A minha calça ficou encharcada. Chegamos numa van e corremos pro barco pra não molhar tanto as roupas, sem sucesso. Todos de Havaianas. Pézinhos molhados e ninguém querendo me preocupar. Cada um foi atrás da sua função fingindo que iam começar o evento como se não estivesse caindo um temporal. Os marinheiros eram uns queridos. Tão sorridentes que eu ficava ainda mais nervosa. Quando de repente um deles começa a secar o barco quando a chuva dá uma trégua e ele diz ''Vai abrir em breve''. Eu olhava pro céu incrédula, estava completamente fechado e preto. Frans chega do antiquário com os objetos, agradeço. E sorridente ele diz a mesma coisa: ''Você vai ver, vai abrir jájá, aqui é assim''. Eu digo ''Se você diz, eu confio em você''. Ninguém sabia melhor do céu daquela casa do que eles mesmos. As pessoas começam a chegar, forma fila do lado de fora mesmo com alguns pingos de chuva ainda caindo. E eu tenho por mim que vai acontecer. Acho que por tanto tempo tanta coisa já deu errado quando parecia que ia dar certo, que eu só acreditei que seria mais um desses casos. Parecia um jogo. Eu pensava: ‘‘E agora que deu certo, o que eu faço? Nunca passei dessa fase’’. Basicamente isso.

E agora é que você se arruma Duda. Tira essa calça encharcada, coloca um short e vai receber as pessoas. Chegam umas ucranianas impecáveis, completamente vestidas em looks super ultrajados, saio eu da cabine, de shortinho e havaianas, aceno e digo ‘‘Oi, eu sou a designer!’’ Elas fazem uma festa, me abraçam, elogiam tudo e tiram foto comigo. E ali começou o que seriam as 4 horas mais rápidas da minha vida. Recebi cerca de 170 pessoas de diversos países, mal consegui parar pra comer, ouvi histórias de vida, me emocionei, fiz amigas, marquei cafés pra quando eu voltasse em Barcelona, me conectei com brasileiras que eu nunca conheci nem mesmo em São Paulo, e ouvi coisas de pessoas que nunca havia imaginado e nem tinha ideia que apareceriam naquele dia. E o tempo não só abriu, como fez um sol absurdo. Tão absurdo que chegava estourar algumas fotos. Uma luz que cegava. O barco secou, Maria ensinou os marinheiros a fazer caipirinha, pessoas de fora passavam, perguntavam o que estava acontecendo e queriam entrar. Cantamos Tim Maia, Rita Lee e Djavan na Dinamarca, num barco patrimônio histórico.

E eu tenho um e-commerce. Vejo e resolvo tudo via telinhas durante o meu dia. Ali eu entendi que o que eu havia construído nos últimos 6 anos de marca ultrapassou fronteiras não só da internet, como do mundo. Não havia uma única pessoa que chegava no barco que não tinha lido e procurado saber da minha história. Todos chegavam até mim e sabiam que eu vendia a camisa que era do meu avô. De repente eu ouvi até suecas falando que haviam passado por Angra.

O que eu faço agora? Repito. Nessa vida eu não tinha chegado nessa fase.

Passei tantos anos tentando fazer a Sage chegar em algum lugar que nunca pensei muito sobre o que aconteceria quando ela chegasse. Eu sabia o que fazer quando ninguém conhecia. Sabia o que fazer quando precisava insistir, explicar, apresentar, mandar mensagem, bater na porta. Sabia até o que fazer quando dava errado. Foram seis anos aprendendo a continuar.

Quando todos foram embora e eu senti o alívio de ter entregado aquele evento, junto eu pensei: ‘‘Acho que cheguei no começo''. O começo de onde tudo finalmente começa a dar certo.

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Diário de Internacionalização #04
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Diário de Internacionalização #04

Assim que o ano virou decidi me inscrever pro Copenhagen Fashion Week.

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