
Há uma beleza em comprar tecidos.
Eu não tinha a mínima ideia de como começar uma marca. Mas instintivamente, sim, fui correr atrás dos primeiros tecidos quando morava em Maceió. Lembro de ir animada até o centro com o meu pai e voltar frustrada pra casa com a certeza de que não daria pra iniciar dali. O lugar em Alagoas que daria pra comprar tecidos era no interior, e longe o suficiente pra não conseguirmos colocar gasolina no carro. Ali abri uma gaveta (lê-se: pasta no computador), joguei meus sonhos e deixei por lá.
Quando voltei para o Rio de Janeiro, segui viagem até uma galeria em São Cristóvão e lembro de comprar uns 2 mil reais em tecido, em 2018. Comprei a melhor lycra do mercado nas cores preto, branco e azul royal. Guardei e coloquei pra jogo só depois de quase 1 ano finalmente achar uma costureira em São Paulo para iniciar as peças. A vida andava confusa, toda hora eu estava num canto e assim não se dá início a nada. As coisas só realmente foram pra frente quando eu sosseguei meu faixo na casa do Pedro e foquei que dali eu não sairia sem a marca pronta. Foi quando numa visita a casa da minha Mãe, eu estava em outro estado (novamente), Pedro me liga aos prantos dizendo que a costureira devolveu os tecidos todos em retalhos. Ela cortou absolutamente tudo e não sobrou nada pra contar história. 2 mil e únicos reais no lixo. Na época eu ganhava um salário mínimo e estava lutando para conseguir meu espaço nos sets de cinema e conseguir um job aqui e ali.
Entrei em desespero, pensei em desistir mais uma vez. Até que nosso modelista atual me liga dizendo que finalmente teria uma vaga pra produzir com ele, e assim estamos aonde estamos.
Lembro de nas primeira vezes sem mesmo conhecer São Paulo, eu pegava um metrô até o Bom Retiro e Brás e voltava com 10kg em tecido nas sacolas. Dividia em todos os cartões possíveis e deixava no Ateliê do modelista aos poucos para iniciar as produções. Depois de meses nesse vai e vem, arranjei uma bela crise de coluna. Lembro inclusive de uma vez parar no hospital com cadeira de rodas com inflamação no nervo ciático.
Mas nem só de histórias tristes se vive o empreendedorismo. Decidi escrever esse texto pra falar sobre a beleza e a admiração que tenho ao comprar tecido. Não sei se pela dificuldade de sempre ter sido muito suado no início, talvez os meus olhos enxerguem com um pouco mais de encantamento quando o moço estende o rolo sobre a mesa e confere centímetro a centímetro antes de dobrar os 50 metros da peça pro motoboy ir buscar. Nessas idas às lojas conheci muita gente do bem (o contrário também), mas tento sempre virar a chavinha pra voltar tranquila pra casa. Geralmente entro na loja, eles já me chamam pelo nome e dão um jeito de caçar comigo o que eu preciso naquele dia. E o processo enquanto os tecidos são dobrados são diálogos dignos de serem registrados.
‘‘- Paulinho tá com pressa hoje, vai levar a morena no restaurante do peixe lá.
- Já escolheu o prato que você vai pedir Paulinho?
- Eu já, entrei aqui no cardápio deles e já sei já.
- Aproveita me leva também, tá me devendo um almoço.
- Oxi, e eu assinei alguma coisa? Lembro disso não caba.
- Não se faça de doidjo, visse?’’
E o melhor ainda são as descobertas pelo caminho. De uma salada de fruta fresquinha no final da rua Joli, no Brás. Ou o Café com o melhor pão de queijo na Três Rios, no Bom Retiro. E um coreano descoberto recentemente (Dare, na Rua Correia de Melo - vale a visita se tiver num dia corrido pelo bairro) que me arrependi de não ter conhecido antes - Que só me mostrou que em São Paulo a gente realmente não sabe de nada. Quando você acha que já é local, a cidade te surpreende. Sempre.
E a loucura quando você chega de Metrô? Pelo menos no Brás, é a linha aonde mais tem conexões com outras linhas. É um caos. Muita, mas MUITA gente passando pra todos os lados cheios de sacola. Africanos, venezuelanos, asiáticos, e todo o tipo de passaporte se une por ali pra fazer compras pelo bairro. Assim que você coloca o pé pra fora, se juntam 5 a 7 caras que gritam sem parar em busca de um cliente pra levar pra loja aonde são vendidas camisas. Eles brigam e discutem sobre qual pessoa eles vão parar quando passar por ali. ‘‘O meu é o japa de boné verde’’ ‘‘Vai naquela ali de blusa vermelha’’ ‘‘AGORA AGORA, pega esse aí de mochila!’’. E assim vivenciei essa loucura encostada na grade com o segurança esperando meu Uber que obviamente cancelou zilhões de vezes e acabei indo a pé mesmo.
Uma coisa muito necessária quando você sai de casa na intenção de comprar tecidos, é ter muito certo em mente o que você precisa e os fornecedores exatos que você vai. Depois de um tempo de experiência, você já sabe aonde você compra a seda (inclusive a minha preferida é uma loja no Jardins que faço questão sempre de ir, aonde tem vários vendedores senhorzinhos super bem vestidos com alfaiataria sob medida, que parecem todos irmãos e eu sempre me confundo com os nomes - são sempre curiosos pra ver foto da peça que vou produzir e sempre orgulhosos com seus cortes e por estarem ali no meio daqueles tecidos todos que eles tanto amam e sabem de cor e salteado), aonde compra o cetim, aonde é o algodão, e aonde são as lycras. Muitas vezes me perco quando chego no meio daquele mundo de cores e texturas e quero produzir 300 peças diferentes com cada coisa, mas é preciso foco. Hoje os fornecedores chegam pra gente com suas amostras em grandes pastas exemplares, mas ainda assim gosto de dar minhas voltas pelo centro pra ver o tecido no rolo e descobrir um novo mundo.
Não sei se você já comprou tecido antes ou se algum dia irá comprar, mas é bem provável que sim. Nem que seja pra uma peça especial com uma costureira do seu bairro. Mas deixo aqui a certeza de que será um dia confortante. Saia cedo de casa, vá de metrô, veja as pessoas pelo caminho, toma um cafézinho antes de iniciar a caçada, seja gentil com os vendedores - as suas únicas companhias por muitas horas as vezes só são os rolos e mais rolos de tecidos - e toque, sinta a textura, pegue amostras, descanse o olhar numa paradinha rápida pro almoço, e volte com toda a certeza que levará pra casa um pedaço do mundo mágico de uma roupa antes mesmo dela ser feita. Que sorte a nossa poder habitar esse Universo.
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Na foto, nossa camisa de seda. Volta em breve em novas cores.




