
Diário de Internacionalização #04
Assim que o ano virou decidi me inscrever pro Copenhagen Fashion Week. Já com o devido número da empresa espanhola, o site internacional a caminho, os envios pra fora fluindo bem, por que não? Sabendo da dificuldade de entrar pro calendário oficial do Fashion Week reconhecido como o mais criterioso do slow fashion, imaginei que seria apenas o início das inscrições de uma sequência de uns 5 anos aplicando. Se um dia queremos participar, que eu inicie o contato com eles o quanto antes. Pensei. Preenchi detalhadamente toda a ficha, alcançando todos os limites de caracteres e contando a nossa história detalhe por detalhe. Que até nossas etiquetas bordadas são feitas no Brasil, que a tag de papel é cortada em guilhotina e prensadas numa máquina antiga também uma a uma, pelo Paulo. Que reciclamos o plástico das embalagens que chegam da fábrica, que não há desperdício de estoque pois tudo é feito limitadamente e até em pré-venda. Que mesmo o linho belga ou o fio de algodão pima são importados e tecelados no Brasil, por fábricas que reutilizam toda a água da chuva e ainda fazem reflorestamento há anos. Contei a minha história em Angra, do meu avô, da minha mãe. O meu relacionamento com barcos e a vontade de trazê-los o máximo que eu posso na nossa identidade, e o quanto isso se conectava com a Dinamarca.
O primeiro e-mail chegou em menos de 24h. Infelizmente as vagas pros desfiles já estavam preenchidas, mas disseram com todas as palavras que amaram a marca e que queriam me trazer uma outra forma de participarmos ainda dessa temporada. Me enviaram um link pra preencher com uma proposta de evento e foram extremamente queridos a todo o momento. Preenchi o link com a ideia do showroom flutuante num barco clássico, barco esse que eu não fazia ideia de como conseguiria, mas a proposta estava feita. Passaram meses e nada de resposta. Pensei que tudo bem, próximo ano estamos aí. Eu nem vendo em euro ainda, que loucura seria pagar um barco enorme que eu ainda nem achei. Quando de repente, 4 de junho às 15:24 da tarde recebo o e-mail que deu tudo certo. Eles nos queriam lá. Corre, manda mensagem pras amigas velejadoras. Contato em Copenhagen? Meninas, preciso de um barco em Copenhagen. Mas tem que ser enorme, de madeira, clássico, conhece alguém? Não, ninguém. Faço na Marina? Não, não dá, precisa honrar com o projeto. Digitar no google: Day charter em Barco clássico na Dinamarca. Opa. 3 únicas enormes e incríveis opções. Mandei e-mail pros 3. Respondiam uma pergunta por dia, e o FW mandando e-mail pedindo a exata localização do evento e nada dos marinheiros responderem. Mandei SMS. Resposta: ‘‘Sorry, we are sailing today, no signal.’’ Óbvio. Dia seguinte, o dia passando e nada. Já é sexta, decido ligar pra Dinamarca. Me atendem e confirmam a data, dão a localização da Soho House. Incrível. Ufa, posso respirar.
Decidi tomar um café de 3 horas com a nossa nova PR brasileira que o universo me enviou que veio fazer um curso em Barcelona e resolveu ficar. Precisa ter Havaianas. Sim, claro que precisa, mas eaí? Eaí que eu vou mandar um whatsapp pra eles, espera aí. Opa, acho que conseguimos uma call. Meu Deus conseguimos uma Call. Faz a apresentação, mostra o barco, conta a história. Nossos clientes não param de falar que vão comprar Havaianas pra compor o look. Sim, vão patrocinar o evento. Me belisca, eu tô sonhando?
Hoje é dia 21 de julho e desde o dia 4 de junho eu estou trabalhando sem parar de 10h da manhã às 23h. Às vezes meia noite. Pagando todo o tipo de boleto, fazendo mil planilhas, decidindo fazer produto pra levar. 55 peças no total. Por que não complicar ainda mais e fazer uma jóia? Sim, uma que se mexe inclusive. Com uma safira. Vai dar tempo. E um bordado num moletom de um pescador em Angra que vai passar mais de 4 horas na máquina, sim, claro. Um blazer de linho com o máximo de alfaiataria bem feita que o Brasil puder produzir, sim, claro. Ah, um tricô também por favor. Por que não um jeans? Traz tudo com a nossa modelo. Claro que a Giovanna vem de novo. Eu nunca deixaria ela perder essa aventura.
Os e-mails não param de chegar. Já temos quase 200 confirmados pra um barco que cabem 60 pessoas, ainda bem que vai durar a tarde inteira. Meus melhores amigos irão pra me ajudar. Kyle de Amsterdam, Maria e Bia da Italia, Tinho do Brasil (com a cdj pra tocar música brasileira pra todo mundo ouvir). Bia é organizada, vai ficar como host. Maria vai cuidar do catering e Kyle vai fazer o máximo que estiver ao seu alcance. E assim nasce uma equipe. Buyers, criadores, jornalistas do mundo inteiro. De Ucrânia ao Chile, teremos de tudo. Todos curiosos pra saber que marca brasileira é essa que vai colocar uns cabides num barco. Até pouco tempo eu estava caminhando pelas ruas de Londres e vendo as Havaianas e a Granado presentes por quase todos os bairros e agora ambas estão como se estivessem dizendo ‘‘Vamos contar uma história juntas sim’’. É como se eu me sentisse apadrinhada e muito bem recebida por amigas que já estavam aqui antes de eu chegar. E que prepararam o terreno pra que hoje o público não só aceitasse a presença da Sage, mas como se já existisse um espaço reservado pra ela.
Antes de vir pra Europa, eu tinha um peso enorme nas minhas costas de como eu conseguiria furar ‘‘a bolha da internacionalização’’. Como seria ir além das histórias que eu já via outras marcas tentando fazer. Eu queria que a nossa história encontrasse espaço por mérito, não por exotismo. Queria que o "Made in Brazil" fosse visto como sinônimo de qualidade, de design, de permanência. Naquela época, eu acreditava que essa responsabilidade era só minha. Que eu precisaria abrir cada porta sozinha, convencer cada pessoa, criar cada oportunidade. Hoje vejo que ninguém constrói nada sozinho. Pessoas se juntaram pra tornar isso possível, e que, por motivos completamente diferentes, resolveram acreditar que uma pequena marca nascida em Angra dos Reis merecia ocupar aquele pedaço de mar. E decidiram estar comigo no mesmo barco, literalmente.




